terça-feira, 24 de março de 2009

VOLTA

Ela abriu a porta.
E lá estava ele, mala do lado, cara de quem quer pedir desculpas.
E sem nenhuma palavra, os dois se abraçaram. Um abraço que durou toda a eternidade.
Dois corações se tornaram um só. Os braços entrelaçados como se fizessem parte de apenas um ser.
Ele a olhou nos olhos
- Voltei. E dessa vez é pra sempre.

domingo, 11 de janeiro de 2009

...



Meu 2009 não começou muito bem.
Eis que num dia ensolarado típico de janeiro, ligo a televisão e me deparo com uma cena chocante.
Uma criança, muito ferida, é carregada pelos médicos, também em pânico . O pai beijando carinhosamente a sua testa, como se quisesse trazer para si toda a dor do filho.
Fiquei aos pedaços.
A voz da repórter surge. “...A ofensiva de Israel contra a Faixa de Gaza continua...”
Sofri um pouco mais ao perceber quantas vezes ouvira a mesma coisa durante as últimas semanas
E nem tinha me dado conta.
Sofri ao concluir que me acostumara à guerra, à morte, ao sofrimento. Contanto que não aconteçam em meu país, com minha gente, com a minha família.
Desligo a televisão e parece que o mundo lá fora parou. Queos pais deixaram de perder seus filhos e que os filhos não choram mais sobre o túmulo de seus familiares e amigos. Que vidas deixaram de morrer prematuramente por frio e fome, nos braços de suas mães aterrorizadas com o barulho dos mísseis caindo. Que aquele homem e seu filho permanecem congelados, como um filme em “pause”. Os lábios dele sobre a pele ferida do menino, esboçando o último beijo...
E vem a sensação de perplexidade.
Perplexidade por viver em um mundo onde o ódio, a intolerância, ou a simples discordância são capazes de tirar milhares de vidas.
Perplexidade por saber que essas tragédias humanas estampam as primeiras páginas dos jornais e ocupam o horário nobre das emissoras. E que esses jornais são comprados por velhinhos para ler calmamente na praça , e os programas assistidos por donas de casa enquanto preparam o jantar da família.
Como um filme qualquer da Sessão da Tarde. Como uma notícia qualquer, do caderno de “Cultura & Arte” ....
Talvez o israelense e o palestino também acompanhem essa superprodução filmada a poucos passos e tenham a mesma perplexidade. A perplexidade de não ter qualquer motivo concreto para uma guerra que dura décadas, e parece não terminar pela mesma razão que começou: a ausência de razão.
Como dizem há milhares de anos: “ O fim está mesmo próximo...”




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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Ano Novo.


Todo ano é a mesma coisa.
Dezembro vai acabando e surgem os famosos planos de ano novo. Prometemos dietas, malhação, um emprego melhor, aquele curso que sempre deixamos de fazer, mais tempo para os filhos, mais tempo para nós mesmos, por que não?
É como se houvesse uma mágica durante a última noite do ano, que dissipasse as dificuldades e tornasse tudo possível.
Acho maravilhoso que, pelo menos nos últimos minutos do dia 31 de Dezembro, sejamos capazes de nos transformar em pessoas mais magras, mais ricas, mais saudáveis, enfim, melhores.
Se não der para praticar tudo o que foi prometido, e quase sempre é o que acontece, seguimos com a vida. Aquela que não pára ao ver os fogos que pipocam no céu , nem se embriaga de champanhe, ou se veste de branco para atrair boas energias. A vida que corre silenciosa por nós e entre nós, e que não se divide em anos, meses ou dias.
Mesmo assim é preciso acreditar: fazer simpatias, pular as sete ondas.... Pois, como alguém já disse, o homem é feito da mesma matéria que seus sonhos. E vamos nos permitir sonhar alto e grande para o ano que chega.




Desejo que as nossas esperanças em 2009 permaneçam tão puras quanto o branco das rosas que jogamos ao mar...



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Tô voltando


"Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto / Eu tô voltando /Põe meia dúzia de Brahma pra gelar / muda a roupa de cama / Eu tô voltando / Leva o chinelo pra sala de jantar...Que é lá mesmo que a mala eu vou largar / Quero te abraçar, pode se perfumar / porque eu to voltando..."
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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Noite




Ele acordou.
Na verdade, nem tinha dormido. Os olhos só estavam fechados enquanto a ansiedade tomava o seu corpo completamente.
Caminhou devagar em direção à porta do quarto. A esposa dormia e ele pôde ouvir o ronco do filho mais velho no quarto ao lado. Andou pelo corredor tomando cuidado para não fazer barulho. Desceu as escadas.
Um rangido forte.
Pisou justo no degrau podre. Tinha se esquecido de pula-lo, como sempre fazia. O suor gelado descia por sua testa, e ele rezou para que ninguém acordasse. Não podia ser descoberto.
Não hoje.
Mas não houve barulho no andar de cima, e ele quase desmaia de tanto alívio. Chegou à porta da cozinha evitando fazer o menor ruído. Estava colocando a chave na fechadura quando o celular vibrou. Era uma mensagem.
“Estou pronta”
Ele deu um leve sorriso. No carro, trocou o pijama por uma camisa e calça pretas. Cinco minutos depois, estacionava em frente a um sobrado amarelo, de onde saiu uma mulher.
Ela caminhava com dificuldade, carregando uma enorme mochila nas costas. Ele correu pra ajudar:
- Os meninos demoraram a dormir. Quase não conseguia - ela disse, sorridente, enquanto entregava a mochila para ele.
- Não deu pra trazer a minha. Trancaram o meu armário, acho que a Teresa anda desconfiada.
Os dois entraram no carro. Ela ajeitava os cabelos loiros num rabo de cavalo. As mãos levemente trêmulas.
- Tá nervosa?
- Um pouco. Tanta coisa pode acontecer essa noite
Ele não disse nada.
- E se estivermos errados? E se não.... – Ela parecia insegura.
- Não se preocupe. Vai acontecer. – ele pegou na mão dela e sorriu.

Viajaram por mais meia hora em silêncio.
Então ele parou o carro. Ela ligou a lanterna.
- Aqui é perfeito.
Quase não deu tempo de montar as lunetas, nem de tirar as cartas astronômicas da mochila. O descampado onde pararam o carro se iluminou com um clarão.
- Olha! É ele! – Ela apontava para cima, gritando.

Exatamente às 2:15 o cometa cruzou o céu. Uma bola de fogo seguindo sua trajetória eterna pelo universo. A luz invade o descampado e quase cega os dois, sentados ali, olhando para o alto, como se atingidos por algum tipo de encantamento.
Então a noite novamente é tomada pela escuridão.
- Só daqui a vinte anos, não é ? – Ela sussurra, como se despertasse de um sonho.
- É.
- Será que vamos conseguir ver?
- Você me disse a mesma coisa a vinte anos atrás.
Eles se olham, e começam a rir.

Uma hora depois estão de volta. Ele ajeita as cobertas da esposa. Ela corre para ver se as crianças estão bem.
Tudo volta ao normal.
Com exceção de um brilho diferente nos olhos. Talvez seja um pedaço de luz do cometa que se partiu e veio morar dentro deles. Bem...existem coisas difíceis de explicar até para quem se ama.
A única certeza é que daqui a vinte anos, quando Agosto se aproximar, eles vão estudar astronomia juntos, e no grande dia, verão novamente o cometa passar diante dos seus olhos.


E sentirão o prazer de reencontrar um velho amigo.



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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Casa da Praia


Meu amor,

Estou na casa da praia.
Engraçado como resolvi voltar aqui depois de tanto tempo.
Não foi fácil. Quando senti o cheiro de maresia freei o carro e manobrei em direção á cidade.
Mas decidi continuar. Fui corajoso dessa vez.


A fachada está a mesma, só um pouco mal-cuidada. Minhas pernas pareciam não querer sair do lugar quando atravessei o jardim, que agora pouco lembra um jardim de verdade.
Entre capim e ervas daninhas, só a mangueira sobreviveu. Aquela, que você comprou na estrada, mesmo quando eu disse que ela ia morrer na viagem. Não morreu, e virou uma árvore linda. Talvez agora você possa abraçar seu tronco como prometeu às crianças no dia que a plantou.
A fechadura continua empenada. Mas prometo que dessa vez vou mandar consertar. É que só me lembrava disso quando ouvia você gritando que não estava conseguindo abrir a porta.
Continuo distraído como sempre.
Acho que roubaram os ganchos onde você pendurava a rede. Mas ainda pude te ver se balançando tranquilamente no fim da tarde. Os óculos tortos e um livro entreaberto no colo. Dormindo de boca aberta feito criança.


Incrível como teu perfume ainda está na casa. Quando abri a porta senti como se você já tivesse chegado. Não sei se era o cheiro do mar....
Não sei se era você que cheirava a mar...


Passei a manhã toda varrendo a casa. Coloquei as almofadas no sol e matei as traças. Limpei o sofá de vime. Foi lá que você me pediu pra sentar quando contou que estava grávida do Téo, lembra?
Alguém esteve aqui e levou embora todos os copos, pratos e talheres da cozinha. Não sei se foi só uma pessoa. Toda vez que você trazia os amigos e parentes pra cá sempre desaparecia alguma coisa. Você reclamava no início, mas depois sorria. Não conseguia viver sem gente ao redor. Os risos, as partidas de buraco e as noitadas com o violão eram bem mais importantes que qualquer utensílio de cozinha.

Vou buscar lenha para o forno. Me lembrei de quando, bem cedo, eu vinha te abraçar enquanto você cozinhava. Todos dormiam e era quando podíamos ficar szinhos. Eu beijava seu pescoço e passeava minhas mãos pelo cabelo molhado de água do mar. Mas sempre terminava com você me expulsando da cozinha, depois de metade do café da manhã ter queimado.


Desculpe, mas não consegui abrir a porta do nosso quarto. Acharia ele muito estranho sem você. Ia doer ainda mais lembrar do calor do teu corpo contra o meu, do barulho da sua respiração quando fazíamos amor...
Lembrar e reviver como se tudo tivesse acabado de acontecer.
Não sei se você sentiu dor. Acho que não. Você continuava com a mesma expressão serena quando te chamei de dorminhoca. Já eram nove da manhã e você ainda não tinha caminhado pela praia como fazia todos os dias.
Mas você não acordou.


O médico da ambulância me explicou que você teve um derrame. Não entendi nada, e duvido que você entenderia. Ele também disse que você estava em coma, algo entre dormir e morrer.
E você tem estado assim durante anos.
Se você pôde ouvir ou ver alguma coisa durante todo esse tempo, talvez tenha se perguntado por que nunca te visitei. Tentei, mas sempre parava na porta do seu quarto. Desculpe, mas quem estava ali , deitada na maca com o rosto escondido por tubos, não era você. Não era a mulher que eu amo.

Ontem , o Téo me telefonou. Há anos não nos falamos. Depois que você foi internada, ele e a Marina foram morar com sua mãe, e nos afastamos um pouco..
Você deve saber deles, são seus filhos. Só você sabia cuidar deles, botar de castigo quando precisava , levar pra cama e contar histórias engraçadas até eles dormirem. Fazer castelos de areia e mergulhar nas ondas do mar.
Só você era amor para todos nós...

Quando o encontrei ele estava com aquela cara que fazia toda vez que aprontava. Me disse que os médicos tinham esgotado todas as possibilidades de curar você, e que seu caso era irreversível. Então ele me abraçou e começou a chorar.

Ele e a Marina decidiram desligar os aparelhos que mantinham você viva e estavam pedindo a minha autorização.

Eu não disse nada. Voltei para casa, coloquei algumas mudas de roupa numa mala e vim pra cá. Ele falou que seria hoje à tarde.

Nunca fui religioso, mas acho que a morte não existe. Sempre me disseram que depois de morrer, as pessoas vão pro céu. Por isso voltei, por que tenho certeza de que a primeira coisa que você vai fazer quando se libertar é vir correndo para a casa da praia.

E eu estou aqui pra te reencontrar. Por que sem você nada faz muito sentido.

Desde que nos separamos tenho vivido para essa hora.

A hora que você vai voltar pra casa da praia, e ler essa carta que eu pus na caixa do correio.

Você sabe que eu sempre gostei de explicar as coisas, mesmo quando nem precisa.

(Veste um biquíni, estou te esperando na varanda com uma caipirinha bem gelada)

Vem logo,
Te amo.
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terça-feira, 29 de julho de 2008

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PROPOSTA

Vem me encontrar
Pra a gente se perder junto.









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