quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Ano Novo.


Todo ano é a mesma coisa.
Dezembro vai acabando e surgem os famosos planos de ano novo. Prometemos dietas, malhação, um emprego melhor, aquele curso que sempre deixamos de fazer, mais tempo para os filhos, mais tempo para nós mesmos, por que não?
É como se houvesse uma mágica durante a última noite do ano, que dissipasse as dificuldades e tornasse tudo possível.
Acho maravilhoso que, pelo menos nos últimos minutos do dia 31 de Dezembro, sejamos capazes de nos transformar em pessoas mais magras, mais ricas, mais saudáveis, enfim, melhores.
Se não der para praticar tudo o que foi prometido, e quase sempre é o que acontece, seguimos com a vida. Aquela que não pára ao ver os fogos que pipocam no céu , nem se embriaga de champanhe, ou se veste de branco para atrair boas energias. A vida que corre silenciosa por nós e entre nós, e que não se divide em anos, meses ou dias.
Mesmo assim é preciso acreditar: fazer simpatias, pular as sete ondas.... Pois, como alguém já disse, o homem é feito da mesma matéria que seus sonhos. E vamos nos permitir sonhar alto e grande para o ano que chega.




Desejo que as nossas esperanças em 2009 permaneçam tão puras quanto o branco das rosas que jogamos ao mar...



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Tô voltando


"Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto / Eu tô voltando /Põe meia dúzia de Brahma pra gelar / muda a roupa de cama / Eu tô voltando / Leva o chinelo pra sala de jantar...Que é lá mesmo que a mala eu vou largar / Quero te abraçar, pode se perfumar / porque eu to voltando..."
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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Noite




Ele acordou.
Na verdade, nem tinha dormido. Os olhos só estavam fechados enquanto a ansiedade tomava o seu corpo completamente.
Caminhou devagar em direção à porta do quarto. A esposa dormia e ele pôde ouvir o ronco do filho mais velho no quarto ao lado. Andou pelo corredor tomando cuidado para não fazer barulho. Desceu as escadas.
Um rangido forte.
Pisou justo no degrau podre. Tinha se esquecido de pula-lo, como sempre fazia. O suor gelado descia por sua testa, e ele rezou para que ninguém acordasse. Não podia ser descoberto.
Não hoje.
Mas não houve barulho no andar de cima, e ele quase desmaia de tanto alívio. Chegou à porta da cozinha evitando fazer o menor ruído. Estava colocando a chave na fechadura quando o celular vibrou. Era uma mensagem.
“Estou pronta”
Ele deu um leve sorriso. No carro, trocou o pijama por uma camisa e calça pretas. Cinco minutos depois, estacionava em frente a um sobrado amarelo, de onde saiu uma mulher.
Ela caminhava com dificuldade, carregando uma enorme mochila nas costas. Ele correu pra ajudar:
- Os meninos demoraram a dormir. Quase não conseguia - ela disse, sorridente, enquanto entregava a mochila para ele.
- Não deu pra trazer a minha. Trancaram o meu armário, acho que a Teresa anda desconfiada.
Os dois entraram no carro. Ela ajeitava os cabelos loiros num rabo de cavalo. As mãos levemente trêmulas.
- Tá nervosa?
- Um pouco. Tanta coisa pode acontecer essa noite
Ele não disse nada.
- E se estivermos errados? E se não.... – Ela parecia insegura.
- Não se preocupe. Vai acontecer. – ele pegou na mão dela e sorriu.

Viajaram por mais meia hora em silêncio.
Então ele parou o carro. Ela ligou a lanterna.
- Aqui é perfeito.
Quase não deu tempo de montar as lunetas, nem de tirar as cartas astronômicas da mochila. O descampado onde pararam o carro se iluminou com um clarão.
- Olha! É ele! – Ela apontava para cima, gritando.

Exatamente às 2:15 o cometa cruzou o céu. Uma bola de fogo seguindo sua trajetória eterna pelo universo. A luz invade o descampado e quase cega os dois, sentados ali, olhando para o alto, como se atingidos por algum tipo de encantamento.
Então a noite novamente é tomada pela escuridão.
- Só daqui a vinte anos, não é ? – Ela sussurra, como se despertasse de um sonho.
- É.
- Será que vamos conseguir ver?
- Você me disse a mesma coisa a vinte anos atrás.
Eles se olham, e começam a rir.

Uma hora depois estão de volta. Ele ajeita as cobertas da esposa. Ela corre para ver se as crianças estão bem.
Tudo volta ao normal.
Com exceção de um brilho diferente nos olhos. Talvez seja um pedaço de luz do cometa que se partiu e veio morar dentro deles. Bem...existem coisas difíceis de explicar até para quem se ama.
A única certeza é que daqui a vinte anos, quando Agosto se aproximar, eles vão estudar astronomia juntos, e no grande dia, verão novamente o cometa passar diante dos seus olhos.


E sentirão o prazer de reencontrar um velho amigo.



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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Casa da Praia


Meu amor,

Estou na casa da praia.
Engraçado como resolvi voltar aqui depois de tanto tempo.
Não foi fácil. Quando senti o cheiro de maresia freei o carro e manobrei em direção á cidade.
Mas decidi continuar. Fui corajoso dessa vez.


A fachada está a mesma, só um pouco mal-cuidada. Minhas pernas pareciam não querer sair do lugar quando atravessei o jardim, que agora pouco lembra um jardim de verdade.
Entre capim e ervas daninhas, só a mangueira sobreviveu. Aquela, que você comprou na estrada, mesmo quando eu disse que ela ia morrer na viagem. Não morreu, e virou uma árvore linda. Talvez agora você possa abraçar seu tronco como prometeu às crianças no dia que a plantou.
A fechadura continua empenada. Mas prometo que dessa vez vou mandar consertar. É que só me lembrava disso quando ouvia você gritando que não estava conseguindo abrir a porta.
Continuo distraído como sempre.
Acho que roubaram os ganchos onde você pendurava a rede. Mas ainda pude te ver se balançando tranquilamente no fim da tarde. Os óculos tortos e um livro entreaberto no colo. Dormindo de boca aberta feito criança.


Incrível como teu perfume ainda está na casa. Quando abri a porta senti como se você já tivesse chegado. Não sei se era o cheiro do mar....
Não sei se era você que cheirava a mar...


Passei a manhã toda varrendo a casa. Coloquei as almofadas no sol e matei as traças. Limpei o sofá de vime. Foi lá que você me pediu pra sentar quando contou que estava grávida do Téo, lembra?
Alguém esteve aqui e levou embora todos os copos, pratos e talheres da cozinha. Não sei se foi só uma pessoa. Toda vez que você trazia os amigos e parentes pra cá sempre desaparecia alguma coisa. Você reclamava no início, mas depois sorria. Não conseguia viver sem gente ao redor. Os risos, as partidas de buraco e as noitadas com o violão eram bem mais importantes que qualquer utensílio de cozinha.

Vou buscar lenha para o forno. Me lembrei de quando, bem cedo, eu vinha te abraçar enquanto você cozinhava. Todos dormiam e era quando podíamos ficar szinhos. Eu beijava seu pescoço e passeava minhas mãos pelo cabelo molhado de água do mar. Mas sempre terminava com você me expulsando da cozinha, depois de metade do café da manhã ter queimado.


Desculpe, mas não consegui abrir a porta do nosso quarto. Acharia ele muito estranho sem você. Ia doer ainda mais lembrar do calor do teu corpo contra o meu, do barulho da sua respiração quando fazíamos amor...
Lembrar e reviver como se tudo tivesse acabado de acontecer.
Não sei se você sentiu dor. Acho que não. Você continuava com a mesma expressão serena quando te chamei de dorminhoca. Já eram nove da manhã e você ainda não tinha caminhado pela praia como fazia todos os dias.
Mas você não acordou.


O médico da ambulância me explicou que você teve um derrame. Não entendi nada, e duvido que você entenderia. Ele também disse que você estava em coma, algo entre dormir e morrer.
E você tem estado assim durante anos.
Se você pôde ouvir ou ver alguma coisa durante todo esse tempo, talvez tenha se perguntado por que nunca te visitei. Tentei, mas sempre parava na porta do seu quarto. Desculpe, mas quem estava ali , deitada na maca com o rosto escondido por tubos, não era você. Não era a mulher que eu amo.

Ontem , o Téo me telefonou. Há anos não nos falamos. Depois que você foi internada, ele e a Marina foram morar com sua mãe, e nos afastamos um pouco..
Você deve saber deles, são seus filhos. Só você sabia cuidar deles, botar de castigo quando precisava , levar pra cama e contar histórias engraçadas até eles dormirem. Fazer castelos de areia e mergulhar nas ondas do mar.
Só você era amor para todos nós...

Quando o encontrei ele estava com aquela cara que fazia toda vez que aprontava. Me disse que os médicos tinham esgotado todas as possibilidades de curar você, e que seu caso era irreversível. Então ele me abraçou e começou a chorar.

Ele e a Marina decidiram desligar os aparelhos que mantinham você viva e estavam pedindo a minha autorização.

Eu não disse nada. Voltei para casa, coloquei algumas mudas de roupa numa mala e vim pra cá. Ele falou que seria hoje à tarde.

Nunca fui religioso, mas acho que a morte não existe. Sempre me disseram que depois de morrer, as pessoas vão pro céu. Por isso voltei, por que tenho certeza de que a primeira coisa que você vai fazer quando se libertar é vir correndo para a casa da praia.

E eu estou aqui pra te reencontrar. Por que sem você nada faz muito sentido.

Desde que nos separamos tenho vivido para essa hora.

A hora que você vai voltar pra casa da praia, e ler essa carta que eu pus na caixa do correio.

Você sabe que eu sempre gostei de explicar as coisas, mesmo quando nem precisa.

(Veste um biquíni, estou te esperando na varanda com uma caipirinha bem gelada)

Vem logo,
Te amo.
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terça-feira, 29 de julho de 2008

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PROPOSTA

Vem me encontrar
Pra a gente se perder junto.









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segunda-feira, 28 de julho de 2008

A mulher de Jorge

Zélia Gattai (1916 - 2008)



Há alguns anos atrás, estava de bobeira na casa de minha avó. Era uma tarde de sábado tediosa e, procurando alguma coisa pra fazer, vi um livro jogado na estante. Cheguei mais perto e li o título : "Anarquistas Graças a Deus - Zélia Gattai"


A edição era antiga e trazia na capa o desenho de uma menina vestida a "anos 20", Decidi folhear o livro apenas para passar o tempo. Mal sabia que ele seria minha companhia constante pela noite, madrugada e o outro dia inteiro!


O livro era uma auto-biografia de Zélia, narrando os seus tempos de menina na São Paulo dos anos 20. Nascida em uma família italiana e anarquista, a escritora contava de forma deliciosa o cotidiano de seus familiares, as descobertas da infância e a sua relação com o anarquismo e o movimento operário, do qual seus pais faziam parte.

Além do bom enredo, o livro impressionava pela escrita simples e ao mesmo tempo cativante, que prende o leitor até a última página. Era como se a própria Zélia estivesse ali do lado, contando despretensiosa suas memórias numa conversa de fim de tarde na "Casa do Rio Vermelho".


Depois que terminei "Anarquistas", comecei "Um Chapéu para Viagem", mas não terminei. Não li mais nenhum romance dela, nem por isso minha admiração por sua obra diminuiu. A delicadeza do seu primeiro livro foi suficiente para me tornar fã.


Simplicidade e Acolhimento. Essas são as minhas impressões mais definitivas da obra e da vida de Zélia Gattai, que por muito tempo conheci apenas como a "esposa de Jorge Amado". Sem pressa (Zélia começou a escrever aos 60 anos) , ela ocupou um lugar especial na literatura brasileira. Não foi apenas amor e inspiração de um dos nossos maiores escritores. Foi também mais uma (e grande) artesã das palavras.


Por isso, expresso a minha tristeza por sua partida. Mas fico com uma frase de Stella Caymmi, escritora e neta de outro grande bahiano, Dorival Caymmi. Em entrevista à "Folha de São Paulo", ela disse:


"Ela foi encontrar o Jorge. Era um caso de amor bonito, o casamento que todos gostariam de ter. Se eu fosse chargista, faria o Jorge de braços abertos recebendo Zélia com uma boa feijoada. Perdi uma avó..."


E nós, uma grande contadora de histórias.

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domingo, 27 de julho de 2008

Asas



Não precisa dizer mais nada.
Não perca seu tempo.
Seus olhos já me disseram tudo que eu queria saber.
Procurei neles aquele brilho diferente que surgia toda vez que você olhava pra mim.
Não existe mais. Agora só vejo um olhar distante, buscando algo que não é daqui.
Você quer ir embora, não é?
Não vou te pedir para ficar.
Você precisa ver o mundo e eu compreendo que as paredes dessa casa te prendem mais do que sua natureza pode suportar.
Porque você agora quer o horizonte...
Mas não me peça para te seguir.
Nem para esperar....
Ficarei aqui na janela, vendo você abrir suas asas e ganhar o céu.
Chorarei
E serão lágrimas sinceras, de dor sincera, de tristeza sincera.
Elas lavarão minha alma de você. Te levarão embora quando molharem o meu rosto.
Então vou limpar meus olhos na barra do avental.
E vou fechar as cortinas..
Preciso da escuridão para não ter vergonha de chorar um pouco mais.
O som dos soluços embalando o meu sono...
(Talvez sonhando eu tenha coragem de voar também
)

sábado, 26 de julho de 2008

Nascente



"... Leva no teu bumbar, me leva / Leva que quero ver meu pai / Caminho bordado a fé / Caminho das águas / Me leva que quero ver meu pai..." ( Caminho das Águas - Rodrigo Maranhão)



Por que escrever um blog?

Para ser sincero, ainda não tenho a resposta para essa pergunta. Talvez por que sempre gostei de escrever, ou melhor, as palavras é que sempre gostaram de mim.

Elas me espreitam enquanto cumpro a rotina de todos os dias esperando meu menor descuido. E quando me distraio, elas invadem o pensamento sem pedir licença.

Então vem a vontade...Uma urgência estranha de criar algo que eu nem sei bem o que é. Pego lápis , papel, teclado e mouse, e como uma represa que se rompe, as palavras se espalham sobre papéis e documentos. Tento guia-las, mas palavras são seres selvagens. Se organizam à sua maneira, e sabem ser muito incômodas quando não estão onde querem estar.

E como é difícil domar as palavras.

Trabalho árduo é o de quem lida com elas. Com seus humores, com seus duplos sentidos, com suas “entrelinhas”...

Por isso ainda não sei o motivo que me levou a criar um espaço onde terei que conviver com criaturas tão indomáveis.


Talvez eu precise de um pouco da insegurança de navegar num rio desconhecido (....)

E sentir o coração bater mais forte enquanto a correnteza me leva. Como será o fim? Um penhasco íngreme ou a imensidão do mar?

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