terça-feira, 29 de julho de 2008
segunda-feira, 28 de julho de 2008
A mulher de Jorge
Zélia Gattai (1916 - 2008)
Há alguns anos atrás, estava de bobeira na casa de minha avó. Era uma tarde de sábado tediosa e, procurando alguma coisa pra fazer, vi um livro jogado na estante. Cheguei mais perto e li o título : "Anarquistas Graças a Deus - Zélia Gattai"
A edição era antiga e trazia na capa o desenho de uma menina vestida a "anos 20", Decidi folhear o livro apenas para passar o tempo. Mal sabia que ele seria minha companhia constante pela noite, madrugada e o outro dia inteiro!
O livro era uma auto-biografia de Zélia, narrando os seus tempos de menina na São Paulo dos anos 20. Nascida em uma família italiana e anarquista, a escritora contava de forma deliciosa o cotidiano de seus familiares, as descobertas da infância e a sua relação com o anarquismo e o movimento operário, do qual seus pais faziam parte.
Além do bom enredo, o livro impressionava pela escrita simples e ao mesmo tempo cativante, que prende o leitor até a última página. Era como se a própria Zélia estivesse ali do lado, contando despretensiosa suas memórias numa conversa de fim de tarde na "Casa do Rio Vermelho".
Depois que terminei "Anarquistas", comecei "Um Chapéu para Viagem", mas não terminei. Não li mais nenhum romance dela, nem por isso minha admiração por sua obra diminuiu. A delicadeza do seu primeiro livro foi suficiente para me tornar fã.
Simplicidade e Acolhimento. Essas são as minhas impressões mais definitivas da obra e da vida de Zélia Gattai, que por muito tempo conheci apenas como a "esposa de Jorge Amado". Sem pressa (Zélia começou a escrever aos 60 anos) , ela ocupou um lugar especial na literatura brasileira. Não foi apenas amor e inspiração de um dos nossos maiores escritores. Foi também mais uma (e grande) artesã das palavras.
Por isso, expresso a minha tristeza por sua partida. Mas fico com uma frase de Stella Caymmi, escritora e neta de outro grande bahiano, Dorival Caymmi. Em entrevista à "Folha de São Paulo", ela disse:
"Ela foi encontrar o Jorge. Era um caso de amor bonito, o casamento que todos gostariam de ter. Se eu fosse chargista, faria o Jorge de braços abertos recebendo Zélia com uma boa feijoada. Perdi uma avó..."
E nós, uma grande contadora de histórias.
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domingo, 27 de julho de 2008
Asas

Não precisa dizer mais nada.
Não perca seu tempo.
Seus olhos já me disseram tudo que eu queria saber.
Procurei neles aquele brilho diferente que surgia toda vez que você olhava pra mim.
Não existe mais. Agora só vejo um olhar distante, buscando algo que não é daqui.
Você quer ir embora, não é?
Não vou te pedir para ficar.
Você precisa ver o mundo e eu compreendo que as paredes dessa casa te prendem mais do que sua natureza pode suportar.
Porque você agora quer o horizonte...
Mas não me peça para te seguir.
Nem para esperar....
Ficarei aqui na janela, vendo você abrir suas asas e ganhar o céu.
Chorarei
E serão lágrimas sinceras, de dor sincera, de tristeza sincera.
Elas lavarão minha alma de você. Te levarão embora quando molharem o meu rosto.
Então vou limpar meus olhos na barra do avental.
E vou fechar as cortinas..
Preciso da escuridão para não ter vergonha de chorar um pouco mais.
O som dos soluços embalando o meu sono...
(Talvez sonhando eu tenha coragem de voar também)
sábado, 26 de julho de 2008
Nascente

"... Leva no teu bumbar, me leva / Leva que quero ver meu pai / Caminho bordado a fé / Caminho das águas / Me leva que quero ver meu pai..." ( Caminho das Águas - Rodrigo Maranhão)
Por que escrever um blog?
Para ser sincero, ainda não tenho a resposta para essa pergunta. Talvez por que sempre gostei de escrever, ou melhor, as palavras é que sempre gostaram de mim.
Elas me espreitam enquanto cumpro a rotina de todos os dias esperando meu menor descuido. E quando me distraio, elas invadem o pensamento sem pedir licença.
Então vem a vontade...Uma urgência estranha de criar algo que eu nem sei bem o que é. Pego lápis , papel, teclado e mouse, e como uma represa que se rompe, as palavras se espalham sobre papéis e documentos. Tento guia-las, mas palavras são seres selvagens. Se organizam à sua maneira, e sabem ser muito incômodas quando não estão onde querem estar.
E como é difícil domar as palavras.
Trabalho árduo é o de quem lida com elas. Com seus humores, com seus duplos sentidos, com suas “entrelinhas”...
Por isso ainda não sei o motivo que me levou a criar um espaço onde terei que conviver com criaturas tão indomáveis.
Talvez eu precise de um pouco da insegurança de navegar num rio desconhecido (....)
E sentir o coração bater mais forte enquanto a correnteza me leva. Como será o fim? Um penhasco íngreme ou a imensidão do mar?
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