Zélia Gattai (1916 - 2008)
Há alguns anos atrás, estava de bobeira na casa de minha avó. Era uma tarde de sábado tediosa e, procurando alguma coisa pra fazer, vi um livro jogado na estante. Cheguei mais perto e li o título : "Anarquistas Graças a Deus - Zélia Gattai"
A edição era antiga e trazia na capa o desenho de uma menina vestida a "anos 20", Decidi folhear o livro apenas para passar o tempo. Mal sabia que ele seria minha companhia constante pela noite, madrugada e o outro dia inteiro!
O livro era uma auto-biografia de Zélia, narrando os seus tempos de menina na São Paulo dos anos 20. Nascida em uma família italiana e anarquista, a escritora contava de forma deliciosa o cotidiano de seus familiares, as descobertas da infância e a sua relação com o anarquismo e o movimento operário, do qual seus pais faziam parte.
Além do bom enredo, o livro impressionava pela escrita simples e ao mesmo tempo cativante, que prende o leitor até a última página. Era como se a própria Zélia estivesse ali do lado, contando despretensiosa suas memórias numa conversa de fim de tarde na "Casa do Rio Vermelho".
Depois que terminei "Anarquistas", comecei "Um Chapéu para Viagem", mas não terminei. Não li mais nenhum romance dela, nem por isso minha admiração por sua obra diminuiu. A delicadeza do seu primeiro livro foi suficiente para me tornar fã.
Simplicidade e Acolhimento. Essas são as minhas impressões mais definitivas da obra e da vida de Zélia Gattai, que por muito tempo conheci apenas como a "esposa de Jorge Amado". Sem pressa (Zélia começou a escrever aos 60 anos) , ela ocupou um lugar especial na literatura brasileira. Não foi apenas amor e inspiração de um dos nossos maiores escritores. Foi também mais uma (e grande) artesã das palavras.
Por isso, expresso a minha tristeza por sua partida. Mas fico com uma frase de Stella Caymmi, escritora e neta de outro grande bahiano, Dorival Caymmi. Em entrevista à "Folha de São Paulo", ela disse:
"Ela foi encontrar o Jorge. Era um caso de amor bonito, o casamento que todos gostariam de ter. Se eu fosse chargista, faria o Jorge de braços abertos recebendo Zélia com uma boa feijoada. Perdi uma avó..."
E nós, uma grande contadora de histórias.
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