sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Noite




Ele acordou.
Na verdade, nem tinha dormido. Os olhos só estavam fechados enquanto a ansiedade tomava o seu corpo completamente.
Caminhou devagar em direção à porta do quarto. A esposa dormia e ele pôde ouvir o ronco do filho mais velho no quarto ao lado. Andou pelo corredor tomando cuidado para não fazer barulho. Desceu as escadas.
Um rangido forte.
Pisou justo no degrau podre. Tinha se esquecido de pula-lo, como sempre fazia. O suor gelado descia por sua testa, e ele rezou para que ninguém acordasse. Não podia ser descoberto.
Não hoje.
Mas não houve barulho no andar de cima, e ele quase desmaia de tanto alívio. Chegou à porta da cozinha evitando fazer o menor ruído. Estava colocando a chave na fechadura quando o celular vibrou. Era uma mensagem.
“Estou pronta”
Ele deu um leve sorriso. No carro, trocou o pijama por uma camisa e calça pretas. Cinco minutos depois, estacionava em frente a um sobrado amarelo, de onde saiu uma mulher.
Ela caminhava com dificuldade, carregando uma enorme mochila nas costas. Ele correu pra ajudar:
- Os meninos demoraram a dormir. Quase não conseguia - ela disse, sorridente, enquanto entregava a mochila para ele.
- Não deu pra trazer a minha. Trancaram o meu armário, acho que a Teresa anda desconfiada.
Os dois entraram no carro. Ela ajeitava os cabelos loiros num rabo de cavalo. As mãos levemente trêmulas.
- Tá nervosa?
- Um pouco. Tanta coisa pode acontecer essa noite
Ele não disse nada.
- E se estivermos errados? E se não.... – Ela parecia insegura.
- Não se preocupe. Vai acontecer. – ele pegou na mão dela e sorriu.

Viajaram por mais meia hora em silêncio.
Então ele parou o carro. Ela ligou a lanterna.
- Aqui é perfeito.
Quase não deu tempo de montar as lunetas, nem de tirar as cartas astronômicas da mochila. O descampado onde pararam o carro se iluminou com um clarão.
- Olha! É ele! – Ela apontava para cima, gritando.

Exatamente às 2:15 o cometa cruzou o céu. Uma bola de fogo seguindo sua trajetória eterna pelo universo. A luz invade o descampado e quase cega os dois, sentados ali, olhando para o alto, como se atingidos por algum tipo de encantamento.
Então a noite novamente é tomada pela escuridão.
- Só daqui a vinte anos, não é ? – Ela sussurra, como se despertasse de um sonho.
- É.
- Será que vamos conseguir ver?
- Você me disse a mesma coisa a vinte anos atrás.
Eles se olham, e começam a rir.

Uma hora depois estão de volta. Ele ajeita as cobertas da esposa. Ela corre para ver se as crianças estão bem.
Tudo volta ao normal.
Com exceção de um brilho diferente nos olhos. Talvez seja um pedaço de luz do cometa que se partiu e veio morar dentro deles. Bem...existem coisas difíceis de explicar até para quem se ama.
A única certeza é que daqui a vinte anos, quando Agosto se aproximar, eles vão estudar astronomia juntos, e no grande dia, verão novamente o cometa passar diante dos seus olhos.


E sentirão o prazer de reencontrar um velho amigo.



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Um comentário:

Tami disse...

ñ canso de ler o seu texto...realmente muito lindo!
te dollo !
beijo carinhoso!
Tami