quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Casa da Praia


Meu amor,

Estou na casa da praia.
Engraçado como resolvi voltar aqui depois de tanto tempo.
Não foi fácil. Quando senti o cheiro de maresia freei o carro e manobrei em direção á cidade.
Mas decidi continuar. Fui corajoso dessa vez.


A fachada está a mesma, só um pouco mal-cuidada. Minhas pernas pareciam não querer sair do lugar quando atravessei o jardim, que agora pouco lembra um jardim de verdade.
Entre capim e ervas daninhas, só a mangueira sobreviveu. Aquela, que você comprou na estrada, mesmo quando eu disse que ela ia morrer na viagem. Não morreu, e virou uma árvore linda. Talvez agora você possa abraçar seu tronco como prometeu às crianças no dia que a plantou.
A fechadura continua empenada. Mas prometo que dessa vez vou mandar consertar. É que só me lembrava disso quando ouvia você gritando que não estava conseguindo abrir a porta.
Continuo distraído como sempre.
Acho que roubaram os ganchos onde você pendurava a rede. Mas ainda pude te ver se balançando tranquilamente no fim da tarde. Os óculos tortos e um livro entreaberto no colo. Dormindo de boca aberta feito criança.


Incrível como teu perfume ainda está na casa. Quando abri a porta senti como se você já tivesse chegado. Não sei se era o cheiro do mar....
Não sei se era você que cheirava a mar...


Passei a manhã toda varrendo a casa. Coloquei as almofadas no sol e matei as traças. Limpei o sofá de vime. Foi lá que você me pediu pra sentar quando contou que estava grávida do Téo, lembra?
Alguém esteve aqui e levou embora todos os copos, pratos e talheres da cozinha. Não sei se foi só uma pessoa. Toda vez que você trazia os amigos e parentes pra cá sempre desaparecia alguma coisa. Você reclamava no início, mas depois sorria. Não conseguia viver sem gente ao redor. Os risos, as partidas de buraco e as noitadas com o violão eram bem mais importantes que qualquer utensílio de cozinha.

Vou buscar lenha para o forno. Me lembrei de quando, bem cedo, eu vinha te abraçar enquanto você cozinhava. Todos dormiam e era quando podíamos ficar szinhos. Eu beijava seu pescoço e passeava minhas mãos pelo cabelo molhado de água do mar. Mas sempre terminava com você me expulsando da cozinha, depois de metade do café da manhã ter queimado.


Desculpe, mas não consegui abrir a porta do nosso quarto. Acharia ele muito estranho sem você. Ia doer ainda mais lembrar do calor do teu corpo contra o meu, do barulho da sua respiração quando fazíamos amor...
Lembrar e reviver como se tudo tivesse acabado de acontecer.
Não sei se você sentiu dor. Acho que não. Você continuava com a mesma expressão serena quando te chamei de dorminhoca. Já eram nove da manhã e você ainda não tinha caminhado pela praia como fazia todos os dias.
Mas você não acordou.


O médico da ambulância me explicou que você teve um derrame. Não entendi nada, e duvido que você entenderia. Ele também disse que você estava em coma, algo entre dormir e morrer.
E você tem estado assim durante anos.
Se você pôde ouvir ou ver alguma coisa durante todo esse tempo, talvez tenha se perguntado por que nunca te visitei. Tentei, mas sempre parava na porta do seu quarto. Desculpe, mas quem estava ali , deitada na maca com o rosto escondido por tubos, não era você. Não era a mulher que eu amo.

Ontem , o Téo me telefonou. Há anos não nos falamos. Depois que você foi internada, ele e a Marina foram morar com sua mãe, e nos afastamos um pouco..
Você deve saber deles, são seus filhos. Só você sabia cuidar deles, botar de castigo quando precisava , levar pra cama e contar histórias engraçadas até eles dormirem. Fazer castelos de areia e mergulhar nas ondas do mar.
Só você era amor para todos nós...

Quando o encontrei ele estava com aquela cara que fazia toda vez que aprontava. Me disse que os médicos tinham esgotado todas as possibilidades de curar você, e que seu caso era irreversível. Então ele me abraçou e começou a chorar.

Ele e a Marina decidiram desligar os aparelhos que mantinham você viva e estavam pedindo a minha autorização.

Eu não disse nada. Voltei para casa, coloquei algumas mudas de roupa numa mala e vim pra cá. Ele falou que seria hoje à tarde.

Nunca fui religioso, mas acho que a morte não existe. Sempre me disseram que depois de morrer, as pessoas vão pro céu. Por isso voltei, por que tenho certeza de que a primeira coisa que você vai fazer quando se libertar é vir correndo para a casa da praia.

E eu estou aqui pra te reencontrar. Por que sem você nada faz muito sentido.

Desde que nos separamos tenho vivido para essa hora.

A hora que você vai voltar pra casa da praia, e ler essa carta que eu pus na caixa do correio.

Você sabe que eu sempre gostei de explicar as coisas, mesmo quando nem precisa.

(Veste um biquíni, estou te esperando na varanda com uma caipirinha bem gelada)

Vem logo,
Te amo.
.

8 comentários:

Ícaro Aquino disse...

Rapaz texto emocionante demais. Vou ler com a caixa de som. Pergunta que não quer calar de onde neto tira essa inspiração. Tens talento.
abraço!

Só ñ se perca ao entrar no meu infinito particular disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Só ñ se perca ao entrar no meu infinito particular disse...

realmente o texto é muito lindo.
fiquei emocionada.
migo vc ta cada dia melhor, acho que vou ter minha dedicatoria no seu livro, né?
amo-te!
beijo carinhoso!

Tami

Unknown disse...

Zé, realmente vc tem talento, gostei dos detalhes do texto, fazendo realmente valer a máxima: "Quem lê, viaja!"

abração!

Anônimo disse...

Neto..
massa d++++..
tem talento cara..
qualquer dia desses lança umas crônicas!!!
hehehehehe
muito bom msm.. as férias tão aguçando a imaginação heim?
hehehehe
abração..

Unknown disse...

BABYYYY!!

vc tem se superado a cada textooo!!!

ta perfeitooo!! perfeitooo mesmoooo!!!

Deus abençoe sua inteligencia!!

*=]

Unknown disse...

Nem preciso dizer nada,né animador de velhinhas?
;)

Unknown disse...

Muito bom, n sei de onde sai tanta criatividade rss ^^